“O que vou dizer não deve agradar a ninguém. No fim, algumas pessoas talvez acusem este repórter de cuspir no próprio prato, e a organização talvez seja acusada de acolher idéias hereges e perigosas. Mas a complexa estrutura das redes de TV, publicidade e patrocinadores não serão abalada ou alterada. É meu dever usar de certa franqueza para falar com vocês, mensageiros sobre o que está acontecendo no rádio e na televisão. Se o que eu disser for responsabilizado, sou eu o único responsável pelas minhas declarações. A nossa história é resultado do que fazemos. Se houver historiadores daqui a 50 ou 100 anos e se houver material de uma semana das três emissoras, haverá provas em preto-e-branco e em cores da decadência, alienação e falta de cobertura da realidade que vivemos. Atualmente, nós estamos ricos, gordos, seguros e complacentes. Somos inclinados a evitar informações desagradáveis e perturbadoras. A nossa mídia reflete essa atitude. Mas, exceto se esquecer os lucros e reconhecer que a televisão está sendo usada para distrair, enganar, entreter e nos isolar, então a TV e os que a patrocinam, assistem e que nela trabalham, terão uma visão bem diferente, mas tarde demais.”
Declaração de Edward R. Murrow em evento da Fundação e Associação de Diretores de Notícias do Rádio e da Televisão. “Tributo a Edward R. Murrow (25 de outubro de 1958)”.
"Tem dias em que alguns setores da imprensa são uma vergonha. Os donos de jornais deviam ter vergonha. Nós vamos derrotar alguns jornais e revistas que se comportam como partidos políticos. Nós não precisamos de formadores de opinião. Nós somos a opinião pública e nós mesmo nos informamos". Presidente Lula no comício do dia 18/09/10 em Campinas, São Paulo.
O pronunciamento do presidente Lula mostra o que Edward Murrow explica em seu discurso com a diferença de que um é governante, o outro é funcionário da imprensa televisiva. O jornalista faz um desabafo aos profissionais que tem o dever de levar todas as informações para que todos possam formar a opinião pública, enquanto o presidente está fazendo um protesto contra meios de comunicação que insistem em divulgar supostos escândalos do seu governo. Lula, ao se tornar presidente da república, deixou de ser uma pessoa do público para ser um funcionário público com o dever de servir a toda população que tem o direito de cobrá-lo.
O conceito de opinião pública teve inicio na Revolução Francesa quando o povo lutou contra a monarquia que dava o direito das riquezas para o rei e os deveres para os camponeses e burgueses. As revoluções aumentaram na Europa com o crescimento da burguesia, que conseguiu destruir o poder do rei junto com o Iluminismo. O espaço que era dominado pelo rei começou a ser considerado lugar público. Então, toda idéia de fiscalização de cada indivíduo com o intuito de melhorias para a população era considerada opinião pública, ou seja, as pessoas começaram a lutar para ser tornarem cidadãos com direito ao gozo dos direitos civis e políticos de um Estado.
Atualmente, a imprensa é considerada a principal voz do povo, com o dever de cobrar dos administradores do poder público. Mas como cobrar dos políticos se eles são favorecidos pelos grandes empresários que são donos das mídias e patrocinam as campanhas para a eleição dos candidatos? A única forma de um jornalista, pequena parte da imprensa, fiscalizar e denunciar corrupções que acontecem nos governos é enfrentar os empresários donos das mídias, como o jornalista Edward Murrow, ou usar o meio mais democrático e independente, a internet. Local onde pode publicar informações que nem sempre são consideradas de interesse do público na visão da ‘‘elite formadora de opiniões’’.
Quando o presidente Lula fala que vai derrotar a imprensa e que nós somos a opinião pública, ele se esquece de explicar quem são os formadores da opinião pública. Será o povo brasileiro que ele representa, são os políticos que ele controla ou os empresários financiadores das campanhas? O presidente é o principal administrador do Estado e deve ser vigiado pelo público que cria a verdadeira opinião pública, porque se ele é o público quem vai fiscalizar o país?
A grande questão é: Será que é possível a opinião pública ser verdadeiramente representada na imprensa brasileira? Até então a única coisa de que podemos ter certeza, é de que ela é criada, nem sempre pelo público. Tudo que leva o título “opinião pública” se torna um instrumento formador de manipulação, mesmo se estiver sendo intitulado erroneamente.
Uau!! Adorei o post!! Mto bom!
ResponderExcluirOuvi falar deste Edward mas n sabia que ele tinha dado essa declaração rs
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bjs